Indicadores financeiros de rentabilidade no processo de geração de valor

Em um ambiente empresarial marcado por mudanças rápidas e desafios constantes, a compreensão e o domínio dos indicadores financeiros tornam-se imperativos para a geração de valor sustentável. Gestores e acionistas, munidos de conhecimentos básicos em contabilidade e finanças, enfrentam a urgência de adquirir as ferramentas necessárias para navegar nas complexidades financeiras. Assim, a aprendizagem desses indicadores não é apenas uma vantagem competitiva, mas uma necessidade premente para orientar decisões informadas e preservar os interesses a curto e a longo prazo.

Nesse contexto, as métricas financeiras desempenham um papel vital, fornecendo uma visão clara do desempenho econômico de uma empresa. Isso significa que a habilidade de interpretar e aplicar essas métricas não apenas diferencia os profissionais, mas também está intrinsecamente ligada à capacidade de gerar valor. Nesse sentido, a geração de valor não se resume apenas a aumentar os lucros, mas também a otimizar o uso dos recursos, a identificar oportunidades de crescimento e a garantir a sustentabilidade a longo prazo.

Levando essas questões em consideração, este texto visa não apenas introduzir, mas também simplificar os conceitos de indicadores financeiros, ressaltando a relevância imediata para gestores e acionistas na busca da geração de valor. Ao explorar indicadores de rentabilidade, como o Return On Equity (ROE), e outras ferramentas essenciais, pretendemos capacitar os leitores tanto a compreenderem quanto a aplicarem esses indicadores na criação de estratégias que promovam a geração sustentável de valor nos negócios em um ambiente empresarial em constante evolução.

Indicadores financeiros

Tanto o gestor quanto os acionistas devem se apegar a algumas métricas conciliadoras de curto e longo prazo, junto a uma comunicação eficiente entre as partes, para garantir que os interesses de todos os envolvidos sejam preservados. Essas métricas comumente adotadas são os indicadores financeiros, sendo eles indicadores de rentabilidade, de eficiência, de liquidez, de crescimento, de endividamento e, por fim, de valor.

Todos os indicadores possuem uma finalidade clara e específica, não devendo ser observados de forma estática. Sendo assim, o acompanhamento de cada um deles é capaz de indicar não só os meios utilizados para a geração de valor, mas também a necessidade de ajustes para a garantia da continuidade do negócio, o êxito (ou não) de determinada estratégia e o acompanhamento das necessidades da firma.

Dessa forma, inicialmente, não existe uma regra clara sobre quais indicadores devem ser primariamente explorados por uma empresa, de modo que cabe ao gestor observá-los na ordem em que lhe for conveniente.

Indicadores de rentabilidade

Em primeiro lugar, devido à complexidade inata ao tema, torna-se fundamental ter o conhecimento prévio sobre os padrões contábeis para a divulgação de informações financeiras de uma empresa, a fim de se obter maior aproveitamento do material apresentado neste artigo. Tendo isso em conta, o padrão adotado no Brasil pode ser encontrado no CPC 26, correspondente à norma internacional IAS 1 de 2011. Assim, dada a extensão do tema, sugere-se a leitura do artigo “Saiba o que é a DRE na Contabilidade”, disponível aqui no blog da BLB.

Após essa breve explicação, é importante destacar que os indicadores de rentabilidade são aqueles cuja principal função é mostrar o retorno gerado mediante uma forma específica de investimento. Para tal, deve-se compreender que a rentabilidade é o ganho obtido dado o valor investido. Assim, pode-se observar como parte componente de todos os indicadores uma relação desta forma:

Tal observação torna fácil a compreensão e a memorização de todos os indicadores dessa classe.

Assim, antes de entrarmos nos detalhes de cada indicador, é crucial entender a importância deles para o investidor. Todo indivíduo que se propõe a investir tem como principal objetivo obter ganhos que recompensem a sua disposição por não gastar o recurso naquele momento. Dessa maneira, metrificar os ganhos e compará-los com o valor que foi poupado proporciona a perspectiva da recompensa por não gastar agora, ou seja, o custo do capital no tempo. Por esse motivo, continuemos com os indicadores.

Um dos indicadores mais clássicos é o ROE, proveniente da sigla em inglês Return On Equity. Esse indicador mostra o quanto um determinado negócio gerou ao seu acionista dado o aporte inicial, o acúmulo de lucros e os prejuízos obtidos, sendo a sua fórmula a seguinte:

O Lucro Líquido é a última linha do Demonstrativo do Resultado do Exercício (DRE), representando o quanto a operação gerou de riqueza após o abatimento dos custos das mercadorias, das despesas da operação, da administração e afins, e, por fim, do abatimento dos juros referente ao endividamento. Já o Patrimônio Líquido é composto pelo aporte inicial dos sócios, conhecido como capital social, e por reservas de lucro diversas, como a Reserva Legal e a Reserva de Lucros.

O Lucro, então, ao ser dividido pelo que foi investido (compreendendo que o lucro de exercícios passados não retirados são considerados como reinvestidos), mostra o quanto do capital se converte em ganhos quando alocado ao processo produtivo da empresa.

Há também a análise específica do Capital Investido, conhecida como ROIC (do inglês, Return On Invested Capital). Esse indicador é representado pelo EBIT (Ganhos Antes de Impostos e Despesas Financeiras) em relação ao Capital Investido, compreendendo o aporte dos acionistas e de terceiros. Nesse indicador, toda a atenção é válida para excluir a interferência da dívida na análise, dado que ela não representa o capital investido de parte relacionada.

Assim, agrupando em uma fórmula, temos o seguinte:

Há também o ROA, Return On Assets, que verifica o quanto o investimento já transformado em ativos se converteu em receita. Em suma, é um indicador que busca mostrar o quanto as máquinas, os estoques, o caixa da companhia, entre outros, são capazes de movimentar a operação daquela determinada empresa. Dessa forma, pode-se observar o quanto investir nessa classe de ativos pode gerar o crescimento dos lucros.

De maneira ilustrativa, essa concepção é expressa pela fórmula:

ROI

O retorno sobre o investimento, ou Return on Investment, é utilizado para demonstrar a geração de valor para os acionistas e para os credores. O numerador é composto pelo Lucro Líquido e pelas Despesas Financeiras, enquanto o denominador é o Investimento, que busca representar a totalidade dos recursos investidos pelos detentores do capital, não limitando o escopo ao capital próprio ou ao capital de terceiros exclusivamente.

Tal perspectiva pode ser representada pela seguinte equação:

Nessa equação, observa-se o surgimento da figura do Passivo Oneroso, referente a obrigações financeiras ou compromissos assumidos por uma entidade que envolvem custos ou encargos significativos. Em outras palavras, é uma obrigação que gera despesas ou sacrifícios financeiros para a entidade que a possui.

Assim, para se verificar a geração de valor, o ROI deve ser comparado ao Custo Ponderado do Capital Investido, conhecido como WACC, melhor explanado no artigo “Fluxo de Caixa Descontado como forma de valorizar sua empresa no Valuation”. Tal análise se expressa pelo indicador do Valor Econômico Agregado (VEA):

ROE Dupont

Este indicador foi um grande desenvolvimento de Donaldson Brown, um engenheiro elétrico que atuava na indústria química. O nome “DuPont” deriva de uma empresa que utilizou esse indicador para avaliar a rentabilidade de suas operações na década de 20 do século passado.

Nesse momento, surgiu um indicador que utilizava bons recursos aritméticos para unificar três indicadores em apenas um, mostrando o impacto de diferentes aspectos na composição do retorno ponderado pelo patrimônio investido. Os três aspectos analisados são a Margem Líquida, o Giro dos Ativos e a Alavancagem Financeira, representados pelas fórmulas abaixo:

Observando atenciosamente essas fórmulas, percebe-se a possibilidade de combiná-las em apenas uma única fórmula para atingir o ROE anteriormente mencionado. O ROE Dupont, portanto, é estabelecido da seguinte forma:

Dessa maneira, essas métricas constituem os principais indicadores fundamentais de Rentabilidade, sendo uma forma simples de comparar empresas integrantes de um mesmo setor. Porém, isso não significa que o Retorno seja o único fator a ser analisado, pois deve-se conhecer também o risco das operações, a saúde financeira da empresa e, principalmente, deve-se avaliar as condições que podem propiciar a continuidade do retorno apresentado.

Diante da complexidade e da urgência em compreender os indicadores financeiros para a geração sustentável de valor, é evidente que gestores e acionistas necessitem de uma abordagem prática e acessível. Tendo em mente tal propósito, este texto buscou não apenas introduzir, mas simplificar os conceitos essenciais, destacando a importância imediata dessas métricas para orientar decisões informadas e preservar interesses a curto e a longo prazo.

Assim, os indicadores de rentabilidade, como o Return On Equity (ROE), apresentam-se como ferramentas cruciais, revelando não apenas o retorno gerado, mas também fornecendo insights sobre a eficiência, a liquidez, o crescimento, o endividamento e o valor de uma empresa. O entendimento desses indicadores não é estático, mas sim dinâmico, permitindo um acompanhamento contínuo para indicar meios de geração de valor, ajustes necessários e o sucesso de estratégias empresariais.

Exemplo prático de análise de indicadores financeiros

Um exemplo concreto sobre os insights gerados pela análise de indicadores financeiros de rentabilidade pode ser encontrado ao se analisar o desempenho desses indicadores no caso de uma empresa do ramo de comunicações que possui capital aberto, a Oi S.A.

Analisando a empresa em questão, pode-se observar o desempenho dos seus indicadores entre o primeiro pedido de recuperação judicial, ocorrido em junho de 2016, e o segundo pedido de recuperação judicial, solicitado em dezembro de 2022. A empresa entrou com tais solicitações por conta de dívidas bilionárias com mais de 50 mil credores, gerando uma desconfiança significativa sobre a continuidade da firma.

Ao analisar o panorama histórico da empresa, observa-se que ela apresentou seus indicadores de rentabilidade mais básicos, como o ROA e o ROE, negativos nos períodos iniciais da análise. Houve, contudo, uma expressiva melhoria até o cenário de 2014, possibilitada pelo impulso em sua capacidade de investir, com a abertura de capital na bolsa de valores brasileira (B³), ocorrida em 2012.

Após esse período, a Oi S.A. entrou em um movimento de constantes prejuízos, apresentando indicadores negativos até 2018, quando a empresa teve seu pedido de entrada em processo de recuperação judicial aceito. Essa leve melhora em seus prazos com fornecedores possibilitou à firma um bom retorno naquele ano, não conseguindo, porém, emplacar uma estratégia eficiente na geração de valor para os períodos seguintes. Com isso, ocorreram quedas catastróficas em seus indicadores de Retorno sobre o Ativo até 2023, conforme ilustrado nos gráficos abaixo:

Assim, ao comparar o setor, pode-se perceber que, na maioria dos períodos observados, a empresa se situou abaixo dos demais players nos dados de ROE e ROA, indicando certa ineficiência. Ao se analisar o conjunto das demonstrações contábeis, é possível notar que os elevados custos e as despesas incidentes contribuem para um resultado negativo, culminando em indicadores significativamente prejudicados.

A partir da utilização desses indicadores, em conjunto, é possível contar a história de uma empresa que não conseguiu ser eficiente na geração de valor dentro do período mencionado. Porém, ao explorar os detalhes de cada indicador, deve-se compreender que a firma, após diversos períodos de prejuízo, pode apresentar indicadores “confusos”. Por exemplo, um ano de prejuízo para uma empresa que já acumula diversos prejuízos (e, por conseguinte, possui o Patrimônio Líquido negativo), pode gerar um ROE positivo, ainda que seja evidente que a firma destruiu valor em seu processo produtivo.

Para evitar tal confusão, o ROA entra em cena, permitindo observar a eficiência na geração de valor considerando os ativos da companhia. Além disso, ele também demonstra ao investidor a capacidade que um determinado conjunto de bens tem na produção de lucro.

Dessa maneira, a empresa demonstra um comportamento de destruição de valor, não sendo capaz de gerar retornos aos seus acionistas. Com isso, ela reduz sua capacidade operacional ao abrir mão de alguns mercados de atuação para sanar as obrigações vigentes.

Vale ressaltar que o estudo de caso não se propõe a ser uma recomendação de investimento, tratando-se, na realidade, apenas de uma perspectiva do passado da companhia. Sendo assim, ele não compreende os passos que futuramente serão tomados e as estratégias adotadas após o segundo pedido de recuperação judicial em 2022.

Em suma, a análise prática de uma empresa demanda uma abordagem abrangente, envolvendo diversos indicadores financeiros e considerando a complexa interação entre a firma e os seus concorrentes no setor. Assim, é essencial realizar um estudo aprofundado dos fatores tanto externos quanto internos à operação da empresa. Nesse sentido, é altamente recomendável explorar o acervo de conhecimento disponível no BLB Blog para enriquecer e aprimorar ainda mais as análises empreendidas.

Autoria de Israel Torres e revisão técnica de Raphael Bloch

Consultoria em Finanças e M&A

BLB Auditores e Consultores

Fonte: Grupo BLB Brasil

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